• FEERJ

A ESCALA DE TREINAMENTO

Atualizado: Nov 9

A escala de treinamento é a mais importante diretriz para treinadores, cavaleiros e juízes.


Ela é válida para o treinamento de cavalos novos e mais adiantados, até o Grand Prix. Seguindo esses princípios clássicos, o objetivo e princípios gerais do Adestramento podem ser alcançados. Em adição, a escala de treinamento é a medida de qualidade de uma performance e a diretriz para os juízes,quando julgam uma competição.


A escala de treinamento é dividida em três partes:

  • Desenvolvimento do entendimento e confiança, enfocando o ritmo, descontração e contato;

  • Desenvolvimento da força de impulsão, enfocando a descontração, contato e aceitação da embocadura, impulsão e retidão;

  • Desenvolvimento da autossustentação, enfocando a impulsão, retidão e reunião.


O resultado é um cavalo totalmente atento e permeável.


A escala de treinamento é um programa de educação física sistemática do cavalo, um programa ginástico para desenvolver o físico natural e as atitudes mentais do cavalo.


Seguindo esses princípios, o cavaleiro obtém um cavalo obediente, descontraído e confortável com um bom treinamento básico. Para um cavalo de Adestramento, as qualidades estabelecidas neste programa são essenciais. Este sistemático treinamento básico garante que o cavalo permaneça suficientemente descontraído e “permeável” durante todo o tempo. Ele tem sido desenvolvido através dos séculos, como um método para treinar cavalos harmoniosamente e manter os cavalos sãos.


Nenhuma das seis fases da escala de treinamento pode ser executada separadamente. Elas devem ser utilizadas conjugadas uma com a outra. O objetivo geral do treinamento é desenvolver um cavalo que seja “permeável” (Durchlässigkeit) e disposto a obedecer imediatamente às ajudas do cavaleiro, sem a mais leve resistência em todos os exercícios, movimentos e transições.


A escala de treinamento se aplica a todos os cavalos, seja para qualquer das modalidades e não somente para cavalos de Adestramento.


1. RITMO

A REGULARIDADE E A CADÊNCIA

A primeira fase da escala de treinamento deverá ser o estabelecimento do ritmo. O ritmo é a regularidade das batidas de todas as andaduras. A regularidade é a correta sequência das batidas e a cadência é a velocidade do ritmo.


Passadas e lances em cada variação de andadura devem cobrir igual distância e também ser de igual duração, permanecendo com uma cadência consistente. O ritmo também deve ser mantido através das transições, dentro de uma andadura em todas as mudanças de direção, também nos cantos, como também nas linhas retas. Nenhum exercício pode ser bom se o cavalo está perdendo o ritmo. A perda do ritmo é frequentemente um sinal de treinamento incorreto. A fim de julgar a correção do ritmo, o juiz deve conhecer como o cavalo se move nas andaduras básicas.


2. DESCONTRAÇÃO

ELASTICIDADE E FRANQUEZA SEM ANSIEDADE

A descontração, juntamente com o ritmo é essencial para a fase de treinamento preliminar. Mesmo que o seu ritmo seja mantido, o movimento não pode ser considerado correto, a menos que o cavalo esteja trabalhando de modo que seu dorso e músculos estejam livres de tensão.


A descontração é um tema central em toda a aprendizagem. Nunca deve ser negligenciada e deve ser constantemente verificada e reforçada.


Somente se o cavalo estiver física e mentalmente sem tensão ou constrangimento, ele poderá trabalhar com flexibilidade e exercitar-se plenamente.


As articulações do cavalo, em ambos os lados do corpo, devem se dobrar e endireitar regularmente, a cada passada ou lance. O cavalo deve transmitir a ideia de que está colocando toda a sua mente e corpo no trabalho. A falta de descontração pode assumir muitas formas diferentes, por exemplo, rigidez nas costas, cola severamente agitada, falhas de ritmo, posteriores sem atividade, boca tensa e seca e entortamento.


As indicações de descontração são:

  • Uma expressão feliz - sem ansiedade;

  • A elasticidade das passadas – a capacidade de alongar e contrair a musculatura de maneira suave e fluente;

  • Uma boca quieta, mastigando suavemente a embocadura com um contato elástico;

  • Uma oscilação do dorso com a cola mantida de maneira relaxada;

  • Respiração suave e rítmica, mostrando que o cavalo está física e mentalmente relaxado;

  • A melhor confirmação e prova da flexibilidade é que, quando as rédeas são alongadas, o cavalo estica o pescoço para frente e para baixo, sem perder o ritmo ou equilíbrio.



3.CONTATO

ACEITAÇÃO DA EMBOCADURA E AJUDA

O contato é a conexão suave e estável entre a mão do cavaleiro e a boca do cavalo. O cavalo deve avançar ritmicamente a partir das ajudas de direção do cavaleiro e "buscar" o contato com a mão do cavaleiro, assim "mantendo" o contato. “O cavalo busca o contato e o cavaleiro estabelece o contato”. Um contato correto e estável permite ao cavalo encontrar seu equilíbrio sob o cavaleiro e um bom ritmo em todas as andaduras. A nuca deve ser sempre o ponto mais alto do pescoço, exceto quando o cavalo está sendo conduzido para frente / para baixo com as rédeas mais longas.


O contato deve resultar da energia dos posteriores ativos, sendo transferida durante o “swing” das costas para o bocado. É, totalmente, errado tentar obter o contato puxando as rédeas para trás. Essa forma de montar sempre interromperá a energia que vem de trás. O cavalo deve avançar com confiança, mantendo o contato, em resposta às ajudas de condução do cavaleiro.


As indicações de um bom contato são:

  • O cavalo caminha para frente apoiando, direito e com a nuca reta e descontraída.

  • O cavalo aceita um contato elástico com a boca quieta, mastigando suavemente o bocado. A língua não é visível.

  • A nuca é o ponto mais alto.

  • A linha do chanfro está à frente da vertical e, em exercícios altamente reunidos, na vertical.

  • Em andaduras médias e alongadas, deve haver um alongamento visível da moldura.


Os juízes devem sempre diferenciar:

  1. Chanfro atrás da vertical; isso é causado por mãos usadas com muita força. Esta falha pode resultar de um erro momentâneo na aplicação das ajudas ou pode ser um sintoma de treinamento incorreto, em longo prazo.

  2. Atrás da mão, não mantém o contato: o cavalo se recusa a aceitar a embocadura. Frequentemente, está associada a uma flexão das vértebras mais abaixo no pescoço do que da nuca.

  3. Arco do pescoço quebrado. Isso ocorre como resultado da tentativa do cavaleiro de estabelecer o contato, puxando as rédeas para trás. O ponto mais alto do pescoço deixa de ser a nuca, e sim o ponto que fica mais para trás, geralmente, entre as segunda e terceira vértebras.

  4. Pesando na mão: Porque o cavalo não está trabalhando o suficiente de trás para frente, ele busca apoio nas mãos do cavaleiro, utilizando-as como "quinta perna".

  5. Contra a mão, acima da mão: o chanfro do cavalo está bem à frente da vertical. O cavalo não flexiona na nuca e usa os músculos da parte de baixo do pescoço para resistir à mão, ao mesmo tempo em que enrijece e encurva as costas.

Quando julgar se um cavalo está aceitando corretamente o contato ou se o mesmo está "na mão", não é suficiente olhar apenas para a cabeça e o pescoço. Os juízes precisam olhar para o cavalo como um todo, sua posição e sustentação e, em particular, a maneira como ele se move.


CAVALO NO POSTO NA MÃO E DEFEITOS DE CONTATO


4. IMPULSÃO

AUMENTO DE ENERGIA DOS POSTERIORES

Impulsão é a transmissão de energia propulsiva controlada, gerada pelos posteriores para o movimento atlético do cavalo. Sua expressão definitiva pode ser mostrada apenas através da leveza e das costas oscilantes do cavalo e conduzido por um contato suave com a mão do cavaleiro.


Impulsão não deve ser confundida com "ação", que se refere à capacidade inerente do cavalo de dar expressivas passadas de trote cobrindo o terreno. Se o cavalo estiver trabalhando com impulsão, o momento de suspensão será mais pronunciado. No entanto, não deve ser exagerado, porque isso está associado a movimento incorreto e exagerado na suspensão, que resulta de tensão, rigidez nas costas e resistência.


O critério mais importante de impulsão é o tempo em que o cavalo passa no ar em vez de no solo. A impulsão é, portanto, vista apenas naqueles ritmos que têm um período de suspensão. Portanto, a impulsão só é possível no trote, piaffer, passagem e galope. Não pode haver impulsão no passo, porque não há momento de suspensão, portanto, no passo falamos de atividade.


Impulsão é sobre o desejo de avançar com a energia e a força de propulsão que é produzida atrás e vai para a embocadura por meio de um dorso flexível e oscilante. A impulsão permite que o cavalo se mova de forma vigorosa e atlética e mostre elasticidade e um expressivo movimento.


A impulsão é de boa qualidade se os jarretes forem direcionados energicamente para frente e para cima, imediatamente após os pés deixarem o solo, em vez de serem orientados apenas para cima ou sendo puxados para trás. O movimento é absorvido pelos músculos das costas do cavalo, de modo que o cavaleiro pode sentar-se suavemente e acompanhar o movimento.


A impulsão é uma questão de treinamento. O cavaleiro usa as andaduras naturais do cavalo e adiciona relaxamento, movimento para frente e descontração para isso. Se o cavalo é impulsionado com tanta força que acelera os passos, o momento de suspensão é encurtado porque ele põe suas patas no chão mais cedo. Nesse caso, mesmo que a regularidade seja mantida, a cadência é muito rápida e a impulsão será prejudicada. A velocidade, em si, tem pouco a ver com impulsão; a velocidade resulta mais frequentemente em tornar as andaduras mais rasantes. É necessário o desejo de avançar com os posteriores, que empurram ativamente e que claramente sobrepistam nas extensões. O cavalo cobre mais terreno no trote médio e alongado e no galope, os posteriores oscilam para frente e para trás no momento da suspensão.


O desenvolvimento e o aprimoramento da impulsão são fundamentais. É importante para o desenvolvimento do impulso para frente e da força de sustentação dos posteriores. É também um pré-requisito para endireitar o cavalo e para a reunião


5. RETIDÃO

ENCURVATURA IGUAL EM AMBAS AS RÉDEAS

O desenvolvimento da impulsão e retidão é essencial para preparar o cavalo para a reunião e torná-lo mais flexível e permeável.


Endireitar o cavalo é uma tarefa sem fim, uma vez que todo cavalo tem algum grau de curvatura natural.


O cavalo é reto quando seu antemão está alinhado com seu postmão, ou seja, quando seu eixo longitudinal está alinhado com a pista que ele está seguindo, seja em linha reta ou curva.


Endireitar um cavalo também significa que ele deve ser capaz de ser encurvado e flexionado em ambas as rédeas igualmente.


As principais razões para endireitar um cavalo são:

  • Para ajudar o cavalo a se manter saudável e sadio, através do peso, distribuído uniformemente em ambos os lados.

  • Para preparar o cavalo para a reunião. Apenas um cavalo direito pode se empurrar e reunir efetivamente, usando os posteriores igualmente e mantendo um mesmo contato em ambas as rédeas. Somente se o cavalo for direito, pode ser flexível e "permeável" igualmente em ambas as direções.

  • Se o cavalo estiver reto, os posteriores empurrarão em direção ao centro de gravidade.



6. REUNIÃO

ENGAJAMENTO E EQUILÍBRIO

O objetivo da reunião é:

  • Desenvolver e melhorar ainda mais o equilíbrio do cavalo que foi mais ou menos deslocado pelo peso adicional do cavaleiro;

  • Desenvolver e aumentar a habilidade do cavalo de abaixar e engajar seus posteriores em benefício da leveza e da mobilidade do antemão;

  • Para aumentar a "facilidade e a sustentação" do cavalo, tornando-o mais agradável de montar;

  • A reunião é desenvolvida através da utilização de meias-paradas e da execução dos movimentos laterais espádua para dentro, travers, renvers e apoiar.

A reunião é melhorada e alcançada pelo uso do assento e das pernas e mantendo as mãos para engajar os posteriores. As articulações dobram e são flexionadas para que os posteriores possam avançar sob o corpo do cavalo.


No entanto, os posteriores não devem ser engajados muito à frente sob o cavalo, a ponto de encurtarem excessivamente a base de apoio, impedindo assim o movimento. Nesse caso, a linha do dorso seria alongada e muito elevada em relação à base de apoio das pernas, a estabilidade seria prejudicada e o cavalo teria dificuldade em encontrar um equilíbrio harmonioso e correto.


Por outro lado, um cavalo com uma base de apoio muito longa, que não consegue ou não deseja engajar os posteriores para frente sob o seu corpo, nunca alcançará uma reunião aceitável, caracterizada por "facilidade e sustentação", tão bem como uma impulsão viva, proveniente da atividade dos posteriores.


A posição da cabeça e do pescoço de um cavalo nas andaduras reunidas é naturalmente dependente do estágio de treinamento e, até certo ponto, de sua conformação. Distingue-se pelo pescoço levantado sem constrangimento, formando uma curva harmoniosa da cernelha à nuca, que é o ponto mais alto, com o chanfro ligeiramente à frente da vertical. No momento em que o cavaleiro aplica suas ajudas para obter um efeito de reunião momentâneo e passageiro, a cabeça pode ficar mais ou menos na vertical. O arco do pescoço está diretamente relacionado ao grau de reunião.


Reunião correta

A flexão mais intensa dos posteriores faz com que o centro de gravidade seja deslocado ainda mais para trás. O resultado é o aumento da leveza do antemão.


Através do desenvolvimento sistemático da reunião, o cavalo mostrará uma qualidade aprimorada das andaduras naturais. Através do maior engajamento dos posteriores e leveza das espáduas, as andaduras parecerão mais leves e livres. Através do desenvolvimento da impulsão, eles mostrarão mais cadência. É somente através do verdadeiro desenvolvimento da reunião que extensões altamente expressivas podem ser produzidas corretamente.


O cavalo reunido dá a impressão de mover-se para cima (“uphill”).


As passadas e andaduras tornam-se mais curtas, mas a atividade / impulsão é mantida e faz com que o movimento do cavalo pareça mais cadenciado.


Da reunião, você leva a energia para a extensão; da extensão, você leva a impulsão para a reunião.


O grau de reunião exigido nas provas em cada nível é que permite ao cavalo realizar os movimentos exigidos com facilidade e fluência. Portanto, a reunião insuficiente resulta em perda de submissão, porque o cavalo não é capaz de realizar o movimento com facilidade e fluência.


O Objetivo Geral da Escala de treinamento

Ser "permeável", ou "deixar passar as ajudas", significa que o cavalo está preparado para aceitar as ajudas do cavaleiro de forma obediente e sem tensão. Ele deve responder às ajudas de direção sem hesitação, seus posteriores avançando e criando ativamente a força de propulsão. Ao mesmo tempo, as ajudas das rédeas devem ser "autorizadas a passar" da boca, através da nuca, pescoço e costas, até os posteriores, sem serem bloqueadas por tensão em nenhum ponto.


O cavalo é "permeável" quando permanece flexível durante todos os exercícios, responde às ajudas do cavaleiro, aceita meias-paradas e transições sem qualquer hesitação ou resistência e atende às ajudas mais leves do cavaleiro:

  • A "permeabilidade" permite que o ritmo seja mantido de forma consistente nas três andaduras e em todas as transições;

  • A energia dos posteriores passará para a frente, através do corpo do cavalo, somente se o cavalo se mover com descontração.Também, sem descontração, as ajudas de contenção não podem atuar, através da boca, nuca, pescoço e costas nos posteriores.

  • Qualquer problema de contato, que seja instabilidade ou rigidez na conexão entre a mão do cavaleiro e a boca do cavalo, irá interferir na habilidade do cavalo de deixar passar as ajudas.

  • Um cavalo que trabalha com impulsão, com suas costas descontraídas e com seus posteriores ativos, estará em uma posição melhor para permitir as ajudas de condução e restrição do movimento.

  • Somente quando o cavalo ficar completamente direito ele poderá aceitar meias-paradas igualmente em ambas as rédeas e, ir mais positivamente ao contato em resposta às ajudas de direção do cavaleiro, sem que seus posteriores escapem para o lado. Essa retidão, por sua vez, é absolutamente essencial para o correto porte da cabeça e pescoço.

  • Se o cavalo responder corretamente aos exercícios de reunião, dando um passo para frente com ambos os posteriores igualmente na direção do centro de gravidade, e carregando mais peso em suas ancas, isso é uma indicação de que atingiu um alto grau de permeabilidade (Durchlässigkeit).

Todos os itens da escala de treinamento são componentes dos graus de conjunto das provas padrão de adestramento. Portanto, os juízes devem sempre verificar os elementos da escala de treinamento antes de dar as notas de conjunto.


BREVE HISTÓRICO DA ESCALA DE TREINAMENTO

A pirâmide da Escala de Treinamento foi desenvolvida em 1912, na Alemanha pelo General von Redwitz e o Coronel Von Heydebreck e, foi incluído no manual alemão após a 2ª. Guerra Mundial.


A escala mostra um plano a ser seguido com o cavalo, seja ele novo ou já treinado, para preservar os seus movimentos naturais quando montado em consonância com o objetivo básico da Equitação Acadêmica: “Devolver ao cavalo a graça das atitudes e dos movimentos que ele tinha, naturalmente, em liberdade”.


A FEI, através da Presidência da Comissão de Adestramento, resolveu em 1º de janeiro de 2006 adotar a Escala de Treinamento e publicá-la na primeira edição do, então, recém-lançado Dressage Handbook, para que todos os envolvidos na modalidade, falassem a mesma linguagem técnica e tivessem a mesma base e conhecimento de seus princípios fundamentais.


Na ocasião, a Presidente da Comissão de Adestramento Mariette WithagesDieltjens, citou na introdução do FEI Dressage Handbook que o mesmo é parte de uma política de globalização da FEI e constituía simplesmente uma ferramenta, baseada nas regras básicas, com o intuito de contribuir com o nosso esporte, visando o desenvolvimento do mesmo e aprimoramento da comunicação relacionada ao julgamento, ao cavaleiro e ao treinamento.



Fonte: FEI DRESSAGE HANDBOOK - Guidelines for Judging

Tradução: Cel. Salim Nigri

283 visualizações0 comentário